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"Eu entrego - eu entrego as lembranças vagas de uma casa que nunca habitei, eu te entrego tudo. E o que tenho para dar? O tudo é o nada disfarçado de orgulho, uma paciência mentirosa. Não consigo mais acreditar em fraquezas; a força não se diz? Eu minto a verdade em uma lágrima de piedade - todas as lágrimas."


20.11.04

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6.11.04

Uma idéia!

Sabe, hoje eu queria conversar com você, que está lendo agora. Mesmo com o risco de não ser compreendida, quero conversar; mesmo que tenha sempre esse lado inverso, "será que vão me entender?"
Foi muito especial escrever durante esse quase um ano. Não achei que o blog ia durar muito, e me enganei - apesar das trocas de nome e endereço, continuei aqui. Exceto pelo sumiço de uns dois meses lá no início do ano, claro.
E vejo que muita gente passou, e muita gente ficou. De qualquer forma, cada um que resolveu se manifestar, deixando um comentário ou mandando um e-mail, contribuiu para que eu ampliasse em pouco a minha visão de mundo. Não sei com quantas e quais palavras deveria agradecer, e o velho "obrigada" me soa automático e vazio demais. Com quantas letras faz-se um agradecimento sincero sem ser piegas?
Não importa; estou feliz, queria que você soubesse que é parte integrante desse todo que sinto.
Foram meses e meses de posts "introvertidos", escrevendo coisas que nem diante do espelho ousaria confessar. Foram palavras que se revelaram e me fizeram encontrar muitos sentimentos que haviam se perdido - porque eu também conheço frustrações, e não me sentiria confortável vestindo uma máscara qualquer para ocultar minhas dúvidas. Foram expostas mais dores que alegrias aqui, embora eu vivesse alguns momentos felizes; mas, esses não precisam ser explicados.
A essa altura, querido leitor e cúmplice, você deve estar pensando que vou deixar de escrever; que isso é um adeus, uma carta de despedida. Na verdade, se eu realmente fosse embora, não daria muitas explicações, não...
Apenas tive uma idéia. A partir de hoje, estarei pondo esta idéia em prática.
Os posts introspectivos continuam, mas não só eles; quero que o blog fique mais "leve", menos denso. Nem só de dúvidas vive este lugar, as interrogações pedem descanso. Gostaria de dividir outras coisas além das minhas emoções e da impressão que elas me causam; esse exercício está me parecendo solitário e distante demais.
Provavelmente, em breve, haverá um novo endereço, um novo nome. Vou pôr um link daqui para a nova "casa". Uma mais acolhedora, espero.
E o Alquimias?
Bem, a alquimia que eu buscava realizou-se, e digamos que um ciclo está se encerrando. Foi o mais verdadeiro dos três blogs, porque já comecei admitindo que falhara em muitas respostas. Aliás, admiti muito mais do que queria admitir, e conto nos dedos (de uma mão só) os posts que escrevi com facilidade. Em certos momentos, pensava em postar um resumo do que se passava por aqui; mas acabaria postando reticências, porque não sabia o que estava se passando, tamanha a confusão que se seguia a mim.
Que tom de despedida, rs. E, no entanto, não estou me despedindo.
Você, que chegou até aqui e me conhece há muito ou pouco tempo, saiba que me conhece mais do que eu mesma, em muitos pontos. A você eu ofereço cada linha do que foi escrito nesses onze meses.
A você eu entrego cada uma das mudanças que ocorreram em mim.
Não haverá tempo de sentir a minha falta; pode ser que ainda poste aqui por um tempo, até o outro endereço estar pronto. Em uma ou duas semanas, ele estará, se não ocorrer nenhum contratempo.
Até mais.
:*






2.11.04

Diário passado

Segunda

"Acreditar."
Tão fácil dizer!
Eu havia chegado mais tarde que de costume, e demorara mais no banho que de costume. Minha irmã forçou a maçaneta da porta, "já acabou aí?", e murmurei que estava tirando a maquiagem.
Mentira.
Queria apenas ganhar tempo; sentia um vazio estranho, como se devesse estar feliz. Devia estar? Por quê? A única frase que não saía de minha cabeça era o que me deixava tão confusa quanto indignada.
"Você precisa ficar boa logo", disse J.
"Eu sei. Mas não posso fazer mais nada, estou tomando todos os medicamentos que poderia estar tomando."
J. era uma boa amiga: sorridente e cúmplice, na maioria das vezes. Ela não sorrira naquele dia; o tom intimativo com que pronunciara a frase me deixou atônita.
"Tudo por causa do trabalho de quarta. Ninguém vai me ajudar a apresentar aquela droga de trabalho", pensei.
Sentei à mesa de jantar com as lágrimas rolando pelo rosto.
"Sozinha. E só me resta Acreditar."
Antes de dormir, rezei o pai-nosso mais longo de toda a minha vida. E o sono veio como uma canção desconhecida, que eu esqueci no minuto seguinte.

Terça

- Você pode fazer esse trabalho, menina. Já passou por coisas muito piores, não se lembra?
- Não tenho boa memória.
- Faça o melhor que puder...
- Vou fazer o impossível. É uma questão egoísta que está me movendo, agora. Eu quero fazer o melhor por mim, e dane-se o resto.

Quarta

- Seu pai está em casa?
- Não.
- Seu avô está com hemorragia interna.
- O quê?

(...)

"Nós não aprendemos a refletir, não nos ensinam a refletir."
Dois anos depois, eu estava retomando minhas idéias frente a uma turma que mal me conhecia. Falava com as mãos trêmulas; a sala fechada e quente parecia o inferno, eu não respirava direito.
"O ensino tradicional resume-se a fórmulas prontas, que não permitem que o aluno entenda o motivo de estar aprendendo, pregando a aprendizagem mecânica e a não-reflexão."
A professora concordava com a cabeça; os colegas olhavam, curiosos. Se era o inferno, parecia estar dando as boas-vindas.
"O Diabo não é tão feio quanto se pinta", refleti.

(...)

- Você arrasou - era J., e eu fingi não escutar. - A professora adorou.

Sorri, e era um sorriso que não significava nada.

(...)

Eu caminhava apressada até o ponto de ônibus, quando alguém passou ao meu lado - me chamando pelo nome e sobrenome.

- Oi, tudo bem?
- Nossa, o seu rosto - ela lastimou, e eu fiquei perplexa. - Está diferente, muito diferente de cinco anos atrás... Nem parece que você teve problemas de pele. Já o meu...

Aquela menina estava esquisita - como se ainda esperasse me encontrar com a blusa do colégio, tênis e a mochila nas costas. Como se ainda esperasse me encontrar boba e triste, tirando notas altas e com a pele destruída por um desequilíbrio hormonal. A voz dela sumiu quando viu que eu estava diferente, e começou a desfiar um rosário de desgraças que havia vivido nos últimos anos.
Eu a ouvi pacientemente, pedi que me procurasse quando quisesse. Nos olhos dela não havia sobra alguma da garota que praticava bullying na sétima série, e fiquei com a sensação de que "a vida dá voltas".
O que ela esperava encontrar em mim? Sinceramente, melhor nem saber a resposta.

Quinta

É o mais "bagunceiro" da sala. Cheguei e sentei na primeira cadeira que vi - na cadeira ao lado da dele. O rapaz ficou quieto imediatamente; um colega perguntou "o que está havendo?" e ele ignorou. Dois minutos depois ele murmura: "estou apaixonado". Ninguém ligou.
Ninguém, exceto eu, que percebi o quanto ele fica estranho quando eu sento ali.

Sexta

O professor começa a distribuição das provas, por ordem alfabética. Quando chega a minha vez, ele pergunta em voz alta quem sou eu; levanto a mão.
- Onde você mora?
"Que pergunta estapafúrdia!"
- Por quê?
Ele não responde. Vou até ele, imaginando que tipo de brincadeira era aquela, e logo comigo - que não tenho nenhum vínculo com ele. Repete a pergunta, e eu repito a minha.
- Onde você mora?
Resolvi responder logo, queria acabar com aquilo; todos já estavam prestando atenção.
- Porque hoje você vai a pé para casa, por causa da nota ridícula que você tirou - ele gritou.
É claro que eu não acreditei, e é claro que eu não achei graça nenhuma.
- Dez!
Era uma prova sobre "Madame Bovary"; só uma prova, um pedaço de papel. Mas, de repente, todo mundo sabia que eu tirara aquela nota, e isso era bom e mau ao mesmo tempo.
"Dane-se o resto, o que vão pensar. A menina de quarta também pensou muitas bobagens sobre mim, e olhe no que deu."

(...)

- Acreditando muito?
- Muito! - eu ri. - Sabe de uma coisa? Não consigo deixar de pensar naquela oração de segunda, antes de dormir. Eu senti uma...
- Força?
- É. Força. Embora eu saiba que foi apenas uma oração, ela parece ter surtido um efeito devastador.
- Reconstruidor - ele corrigiu. - Ela é só um detalhe; o que importa é que você acreditou.
- Eu já rezei tantas vezes, mas nunca foi assim. Há uma diferença...
- Você rezou, acalmou seu coração, e foi atrás do acredita. Essa é a diferença.

..............................

Bom conselho
Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa

Está provado, quem espera
nunca alcança

Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar
Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade.
(Chico Buarque de Holanda)






23.10.04

Depois de tudo...

Depois de tudo, vemos que as palavras não ditas não são silêncio nem palavras; vemos que a estrada percorrida é pequena perto do restante a percorrer, e que reclamações são uma maneira de reconhecer que tentamos - quando não chegamos exatamente ao resultado que buscávamos.
Depois de tudo, somos maiores e menores que nós mesmos: o que deixamos para trás pode ser importante, mas é o que levaremos conosco que nos tornará vencedores ou perdedores.
Nunca será um perdedor aquele que souber apoiar seus objetivos sobre suas pernas, ainda que estas sejam hesitantes e frágeis. A hesitação não é uma vergonha; antes a confiança pode cegar, falseando as pedras que encontraremos até o fim da jornada.
E, quando cair, lembre-se de que muitos caíram sobre o mesmo chão. Lembre-se de que eles não desistiram.
Lembre-se de que não pode desistir.
O universo pode ser uma série de acasos, ou esconder uma linguagem - que muitos tentam catalogar e vender sob uma doutrina religiosa. Nada importa, desde que algo o mova e o deixe livre para levantar-se novamente.
"Por que você está escrevendo isso?"
Porque sou humana. E, como qualquer humana, duvidei da linguagem que me era oferecida, e passei a acreditar em acasos.
Os "acasos" começaram a acontecer.
Veio o primeiro tombo. E outro. E uma série deles.
Não estava entendendo onde tantos planos frustrados me levariam. Eu me sentia digna de conseguir o que queria, não estava infligindo dor a quem quer que fosse - mas algo estava errado.
Eu, agora, duvidava da linguagem. Duvidava das respostas que me eram oferecidas, e as respostas, agora, estavam erradas.
Só por eu duvidar delas? Só por eu não querer vê-las, elas também não viam a mim?
Acreditar. Uma palavra de quatro sílabas e uma força tremenda, uma força que sempre existiu - em todos os povos, em todas as crenças. Uma palavra imemorial, que resume o sentido de todas as loucuras que precisamos cometer em nome de "eu mesmo", quando ainda nem descobrimos quem é o "eu mesmo" ou quem é "o outro".
Depois de quatro dias, com algum problema de garganta que me fazia tossir sem parar, sentei no sofá vermelho: pálida, com suor e com frio, abaixei a cabeça numa posição inimaginável para alguém saudável - mas, agora, eu era uma doente, eu decidiria onde e como me sentiria melhor. Os óculos escorregavam sem que eu percebesse; tudo era cansaço, um cansaço de resistir. O sono veio junto com duas ou três lágrimas, um sono sem perguntas, um sono exausto.
"Resistir."
"Quando seu corpo e sua alma estão exaustos, quando o que o separa da desistência é a largura de um fio."
Então, descobrimos que podemos ir além de cada obstáculo que criamos, e que o acaso é uma resposta disfarçada de pergunta.
É uma questão de fazer a pergunta certa.
"Até onde você é capaz de ir para realizar o que realmente acredita? Quantos passos a mais pode andar, mesmo sentindo que seu corpo já não colabora mais?"
Eu não acredito em acasos, e sei o preço dessa confissão. Porque o mundo adquire um sentido terrivelmente maravilhoso, um sentido confuso de quem acredita no nada por necessitar de uma perspectiva.
Não é o nada. Não é a necessidade de uma perspectiva. É uma experiência: não acreditar é uma forma de querer acreditar, e muito.
Mas não preciso disfarçar minha fé sob aparências, por receio de parecer ingênua. Já quis parecer forte, e a minha força era o vazio de uma vaidade estúpida.
Depois de tudo, o que resta é perceber que as respostas só aparecem para quem acredita nelas. Não importa o julgamento alheio.
Eu posso pagar o preço, qualquer que seja ele.

[P.S.: Também não estou conseguindo acessar e-mails! As coisas não estão muito boas nesse PC... O meu continua na assistência técnica, sem previsão de volta. :*]






16.10.04

Um café, por favor.

Eu já estava há muitos minutos ali, olhando o nada através da janela. Ele esperava que eu discorresse sobre algum dos meus "problemas indissolúveis", que quase sempre tinham a ver com alguém que eu não conhecia ou um livro que não acabava nunca.
- Comprei um livro hoje - comecei, sem saber o que estava dizendo. - Tive pesadelos a noite inteira, acordei tarde, almocei às dez da manhã. Saí sozinha e sem dinheiro, a não ser o do livro e o do ônibus. A propósito, literatura mexicana é um tanto aborrecida, sabe? Eles falam de política e tortillas. Eu não conheço a política do México, nunca comi tortillas. Também não costumo ter pesadelos. Acha que eu preciso de um médico?
- Precisa escolher livros melhores - ele disse, antes de uma longa pausa.
E antes de sentar-se ao meu lado.

- O que está havendo?
Ele queria saber, não era uma imposição minha. Há muito eu desistira de falar de mim, das minhas idéias românticas e neoplatônicas. Agora, alguém perguntava o que estava havendo, sentava-se ao meu lado e tentava adivinhar pensamentos.
Porque eu sabia que ele adoraria fazer isso.

- Eu tenho uma faculdade, que pede mais do que posso ou quero fazer. E lá tem um rapaz que me diz "você está bonita" e pergunta se estou apaixonada; eu respondo que estou feliz, embora esteja cansada e durma mal, pensando em flexões de gênero e regências verbais que não acrescentarão muito à minha nobre existência.
Eu tinha vontade de parar, mas ele agora me encarava - o que me fez gaguejar algumas vezes.
- E tem também um estágio que me faz lembrar todos os dias que fiz uma escolha: veja, eu sou professora! Sou o que estiver escrito em meu diploma, eu sou um vestibular mais trinta e seis meses de mensalidades pagas. Eu sou quantas gramáticas existirem em minha biblioteca, ainda que meu rosto mostre o quanto sou novata e me julguem por isso. Os anos calejam a alma das pessoas, não? Dizem que eu ainda tenho muito a aprender, como se o passado não contasse, como se o futuro escondesse um pote cheio de moedas que, depois descobrimos, não valem em lugar nenhum.
"Eu digo isso porque os mais velhos não parecem mais felizes, apenas mais velhos e com menos esperança. Parecem donos de um futuro vazio, e tenho vontade de perguntar porque reclamam das escolhas que fizeram, se continuar também é uma escolha, e como todas as outras pode ser mudada ou remediada."

- Você está com raiva, Lya.
- Eu estou com raiva, sim; mas é uma raiva cheia de esperança, uma raiva doce. Tanta gente esconde a raiva por medo de parecer abominável, pouco cristão. E, me diz, o que temos a perder? Calamos a raiva e, no momento seguinte, alguém aparece e diz "aja assim, você será feliz se fizer o que estou dizendo!", como se a felicidade que eu procuro fosse a mesma que sete ou oito bilhões também procuram. Por que todos os caminhos têm de ser os mesmos? Por que a sua alternativa é melhor que a minha, e por que eu deveria aceitá-la?
- Você não precisa aceitar nada. Sinta raiva, grite, chore, vá contra o que acha errado, mas, quando puser a cabeça no travesseiro, sinta que fez tudo o que poderia ter feito, por você e pelos outros, naquele dia. Então não existirão pesadelos capazes de fazer você comprar livros ruins. Quem sabe até sobra algum dinheiro para você pagar um café para nós dois - ele riu. - Enquanto isso - jogou a carteira -, veja quanto temos para nosso "jantar". A noite está apenas começando.
- Você está louco. Eu preciso voltar para casa!
- Já ouviu falar em táxis?
- Já ouviu falar em horários?
- Eu me explico com a sua mãe. Fique.
- Você só pode estar brincando!
- Quando você estiver em casa, pijama, cabeça no travesseiro, vai pensar que poderia ter ficado e tomado um cappuccino comigo?
- Talvez. Mas aí estarei em casa, não terei inventado mentiras, e...
- ... e, em cinco anos, não terá vivido nada. Não saberá quantas pessoas gostavam da sua companhia, e que poderia ter feito a diferença em uma noite como essa. Duas horas! Você chega em casa antes das dez, tudo bem?

Eu apertei os olhos querendo dizer "você faz pedidos absurdos!", e estendi a mão para descermos ao café.
- Antes das dez - repeti. - Senão viro borralheira.
Foi uma das melhores noites da minha vida.

[Recadinho: Não consigo acessar alguns blogs, me perdoem. Estou usando um computador que não é meu, alguns sistemas de comentários não abrem. Continuo tentando, ;) ]